O que você não sabe sobre o futebol
Futebol e geopolítica
O Newcastle, tradicional time inglês de futebol, existe desde 1892 e é um dos mais importantes do país. Nos últimos meses, o time vem tendo conversas com investidores sauditas, que estariam interessados em colocar caminhões de dinheiro no clube, se tornando donos. Quem observa essa ação com menos atenção pode pensar que esse movimento pode representar apenas uma oportunidade de investimento. Quando analisamos em uma perspectiva geopolítica, no entanto, outras razões se apresentam para que investidores árabes se sintam interessados em comprar um clube de futebol inglês.
Não seria a primeira vez
O Paris Saint-Germain, chamado também de PSG, sempre foi um coadjuvante em sua liga local, mesmo sendo o principal time da capital da França. Essa história começou a mudar em 2011, quando o Fundo de Investimento Quatari (fundo estatal que existe para investir o dinheiro do petróleo do país) adquiriu 100% do PSG. Desde lá, o time copou 7 títulos nacionais, contratou diversos ídolos mundiais e é hoje um dos principais clubes de futebol do mundo, tendo como principal meta a conquista de uma inédita taça de campeão europeu. O mesmo processo aconteceu com o Manchester City em 2008. O clube que historicamente sempre foi uma sombra do seu rival local, o Manchester United, hoje tem um elenco muito superior, que vem sendo muito produtivo dentro das quatro linhas, copando os dois últimos campeonatos ingleses, que é o mais disputado do mundo. Essa subida de patamar foi possível pelos investimentos bilionários do magnata Mansour bin Zayed Al Nahyanl. Ele também fez sua riqueza com o petróleo do Oriente Médio, só que nos Emirados Árabes Unidos.
Esses são apenas dois exemplos de uma extensa lista de times tradicionais que foram comprados nas últimas décadas. Poderíamos citar ainda a Inter de Milão, o Milan da Itália, o Mônaco da França e o Chelsea da Inglaterra. Essas operações muitas vezes movimentam milhões de euros, mas não dizem respeito apenas a transações financeiras. A injeção de dinheiro não significa necessariamente bons resultados dentro das quatro linhas (os italianos o que o digam). Vamos nos ater, no entanto, para as razões que levam os investidores a adquirem um time de futebol.
O poder da influência
Com os avanços dos meios de comunicação, o futebol se tornou em um fenômeno global. Apaixonados dos 4 cantos do mundo idolatram os super-times europeus e suas estrelas, assistindo jogos, comprando camisas e expressando sua paixão; sentimento esse que apenas os que gostam do esporte são capazes de compreender. Então, o investimento em clube de uma grande liga pode significar um reconhecimento mundial da figura da investidor.
Foi exatamente isso que ocorreu com Romam Abramovich. O empresário russo é acusado pelo seu governo de desviar centenas de milhões de rublos, participar de esquemas de corrupção e outros diversos crimes. Buscando fugir dessas acusações, ele se exilou em Londres e acabou por adquirir o Chelsea, time da capital inglesa. Assim, Abramovich passou a frequentar a alta sociedade londrina, adquirindo um status bem melhor do que de um perseguido político. Essa mudança de patamar só foi possível pela importância que o Chelsea tem para muitos londrinos e para tantos outros milhões de torcedores, que acabaram por popularizar o nome do russo e em muitos casos o verem como uma figura amigável por investir milhões de libras em seu time do coração.
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| Abramovich vendo um jogo do Chelsea, em 2017 |
O caso do Newcastle
O interesse dos sauditas não difere muito dos interesses de Abramovich. Devemos lembrar que a Arábia Saudita é um regime totalitário e opressor, onde não existem cinemas, imprensa livre e as mulheres só conseguiram o direito de dirigir a poucos anos atrás. O país é liderado pelo jovem Mohamed Bin-Sauman (MBS) ,que tenta passar uma imagem secular e progressista ao país, mas continua imerso no autoritarismo, como na morte do jornalista Jamal Khashoggi, claramente tramada pelo MBS, na embaixada saudita na Turquia.
Faz muito sentido o interesse dos sauditas na compra do Newcastle, imaginando que a imagem do país pode ser melhorada a partir da vinculação com um tradicional time no país onde o futebol foi inventado. Parte da opinião pública, a partir daí, pode associar a Arábia Saudita não mais como uma ditadura sanguinária, mas sim como um grupo de jovens investidores apaixonados por futebol que que estão interessados em levar conquistas a um grande clube.
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